Quando o jogo entre Brasil x França foi anunciado, alguns meses atrás, passei a reparar algumas falas que são repetidas e que escuto desde que passei a acompanhar futebol. "França é jogo ruim"; "Eles sempre têm jogadores que se tornam carrascos"; "Nosso histórico não ajuda"; "Brasil e França em copa? Esquece, é derrota!"; Coisas desse gênero são o que eu me recordo quando penso sobre o que escutava quando o assunto era esse.
Atualmente, com um elenco recheado de craques, fica fácil colocar a França como top 1 do mundo. Mbappé, Olise, Dembelé, Tchouameni, Camavinga, Cherki, Saliba e assim por diante, esse nível assusta.
Porém, acima de tudo, na minha concepção, o que guarda hoje e sempre guardará esse jogo - até que os papéis sejam invertidos - é a capacidade dos franceses em serem nossos carrascos.
Para isso, alguns registros históricos foram resgatados, para contar essa história dos nossos confrontos e em como sofremos contra eles até aqui. Entre todos, posso iniciar traçando um caminho que conecta as derrotas e o porquê elas se tornam tão marcantes: todas as gerações que perderam, eram históricas.
1982: Júnior; Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico; Serginho Chulapa e Éder.
1998:  Taffarel; Cafu, Aldair, Júnior Baiano e Roberto Carlos; César Sampaio, Dunga, Leonardo e Rivaldo; Bebeto e Ronaldo.
2006: Dida; Cafu, Lúcio, Juan, Roberto Carlos; Emerson, Zé Roberto, Kaká, Ronaldinho Gaúcho; Adriano e Ronaldo.
Três gerações diferentes com jogadores históricos, multicampeões, ídolos nacionais, melhores do mundo, maiores da história dos clubes que passaram, todos unidos por uma única coincidência, a eliminação para a França na Copa de suas vidas.
Da mesma maneira que sempre, deixo uma playlist para acompanhar a leitura. A escolha dessa vez é um mix de JuL, artista de rap francês que revolucionou o gênero na Europa, muito escutado por jogadores da região, e realmente bom. Seu estilo de rima, produção, escolhas estéticas se aproximam do que consumimos aqui de certa forma. Escute, conheça, leia e aproveite:
A história tem que ser contada da forma que ela ocorreu em ordem cronológica. 1958, não éramos nem perto do que somos hoje, sem estrelas no peito e vindo de uma humilhação em casa, o famoso "Maracanazzo".
Entretanto, uma hora nossa história de vitórias seria construída, e esse dia marcou a classificação para a final de 58, onde brilharíamos pela primeira vez.
Em campo Didi, Zagallo, Gilmar, Bellini, Orlando, Nilton Santos, Zito e Vavá.
Os outros dois jogadores faço questão de colocar a parte, porquê são nomes que fazem parte de um ponto único: Garrincha e Pelé.
Brasil 5 x 2 França. Um recital de Didi e do jovem de apenas 17 anos Edson Arantes do Nascimento, que havia dado mais um passo ali para a sua trajetória de Rei.
Ok é realmente bom falar de vitórias e momentos que nos saímos bem, porém aqui o propósito não é esse.
Fazendo uma viagem temporal para o ano de 1986, quando a seleção havia apostado no técnico e jogadores que haviam feito mágica em campo no ano de 82. Dessa vez, era esperado que saíssemos com a taça, visto que, aquela geração era realmente incrível.
Já tínhamos três estrelas, éramos os maiores campeões e que encantavam o mundo. O medo devia ser deles. Nós devíamos ser os carrascos.
Em um jogo muito acirrado, contando ainda com um pênalti perdido pelo galinho Zico, o empate em 1 a 1 levou a partida para os pênaltis. Todos mexidos mentalmente e esgotados fisicamente. Havia uma história que Sócrates disse que não era capaz de sentir as próprias pernas.
E assim o doutor errou uma das cobranças, e depois Júlio Cesar parou no azar.
Eliminados no dia 21/06/1986, com uma geração que ficaria marcada por derrotas e um hiato em Copas.
Cresci escutando que essa geração não merecia passar por isso, que o Zico de 100 erraria aquele pênalti uma vez, a equipe não soube se corrigir.
Um ponto que merece reconhecimento é que, em um estudo que sairá em algum momento, ouço falar e reparo que, até essa Copa tínhamos uma grande quantidade de torcedores que se organizavam para ir apoiar a seleção.
A história tem dessas, nos trás uma ambivalência emocional ao reparar o que vem depois.
O inexplicável de 98.
Em toda a minha vida - curta ainda - acompanhando futebol, estudando e me aprofundando nas histórias e óticas, esse jogo é um dos mais complexos e abstratos.
Uma final de Copa, com os anfitriões chegando na final e de frente para os atuais campeões com uma geração absolutamente incrível. Todo jogo é único, porém esse pendia para o nosso lado.
Quando de repente, horas antes da partida, o atacante brasileiro e melhor do mundo simplesmente convulsiona sem motivos prévios no quarto do hotel, instaurando o pânico e jogando para algum lugar irreconhecível a concentração da equipe. 
Em campo, um vai e vem de escalações pré jogo, dúvidas sobre o atacante, preocupação e uma tensão singular que atravessava aquele momento. O resultado? Zidade uma vez, Zidane duas vezes e Petit aos 90 para acabar com o sonho.
No fim das contas, a história que fica no contexto geral é, os franceses são tão carrascos que em qualquer jogo com eles, independente da geração/momento, algo extremo acontecerá. Um pênalti errado da grande estrela, uma convulsão, grandes chances desperdiçadas. Mais uma vez, maltratados pela história.
A queda do 'Jogo Bonito', com a beleza por apenas uma das partes.
Novamente abordando fatos de quando eu cresci, posso dizer que a Copa posterior a essa foi a primeira da minha vida. Portanto, o método comparativo até mais ou menos 2014 foi essa seleção. E, honestamente, ainda sendo uma criança, me perguntava como uma seleção repleta de craques e que todos vendem como "invencível", pôde perder uma Copa dessa maneira.
Até que chegamos quando eu basicamente iniciei esses estudos. 2019, era um final de semana aleatório, resolvi achar esse jogo e assistir. Ótima decisão, me fez ver como a história contada por vezes pode esconder e distanciar o que foi real com base em leituras tomadas por amor, nostalgia e talvez raiva. Em resumo, saudosismo. 
Jogo apático, pífio, com direito a Ronaldo tomando um chapéu de Zizou e rindo. Em pleno mata-mata de Copa. Essa geração, a cada ano que passa, tem sido mais exposta a podcasts, posts em grandes mídias e enfim, uma hora as verdades caem por terra. Talvez aqui, os carrascos tenham sido nós mesmos.
São ao todo quatro enfrentamentos em Copa, e apenas uma vitória para nós. Sei que ao incluir outros jogos, esses números se estabilizam um pouco, porém o retrospecto ainda é deles. Enfim, são nossos carrascos históricos, foi e continua sendo uma das únicas seleções que nos fazem olhar de igual para igual em um contexto geral, visto que hoje nosso momento não é dos melhores.
Brasil e França se enfrentarão hoje (26/03), já como um dos últimos jogos para a Copa. A partida ocorre no Gillette Stadium, em Massachusetts. O retrospecto não nos diz que será uma boa partida para nós, muito menos que devemos nos animar. Porém, aguardemos.
Mais uma edição está completa, caso tenha chegado até aqui, muito obrigado. Leia as outras edições RESGATE_002 e RESGATE_001. Que os Deuses do futebol nos acompanhem e que dê tudo certo.
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