Ao final de 2025, passei a me interessar em desenvolver uma coleção de revistas, seja de futebol, música, filme, qualquer coisa. Achava que seria só por interesse em ter contato com arquivos, incluir essa pesquisa em outros projetos que estão sendo desenvolvidos. No final das contas reforcei a sensação de ter o contato com peças históricas, que te levam a um certo recorte entre espaço-tempo muito específico e poderoso, capaz de apresentar um novo mundo, a cada nova página.
Digo que, a revista que eu ganhei em uma ida ao dentista no início do ano de 2010, o Guia Oficial da Copa do Mundo, produto licenciado pela Fifa lançado desde 1998, me formou como jornalista ainda criança, e queria continuar essa paixão e vontade que sempre tive.
Com isso, nasce o projeto intitulado RESGATE, uma tentativa em unir uma curadoria individual através dessas revistas, arquivos e pesquisas, de maneira individual e com jovens criativos e suas formas de enxergar o mundo e principalmente, o futebol. Acredito que, isso ficará mais claro ao decorrer do desenvolvimento das edições. Mas, o intuito é trazer a tona e RESGATAR momentos, registros históricos, histórias, nostalgia, a relação ou contradições entre clubes, tudo aquilo que foi visto e esquecido - ou não tão lembrado como deveria - sobre o esporte que rege uma paixão mundial. Fora as criações, ativações, eventos, hosts, roupas, há um mundo inteiro a ser explorado.
Para finalizar a explicação, um por quê: Nossa memória é curta
Falas, análises, achismos, tudo que é dito da mesma forma que pode ficar marcado, ser comprovado ou refutado, é esquecido de uma forma mágica. Sinto a necessidade de reviver e trazer de volta algumas análises e discussões, para novas leituras e complementar com o que temos e debatemos atualmente.
A história só é entendida quando apreendido o passado.
Antes de iniciar a primeira coleta, deixo a indicação de uma playlist para acompanhar a leitura:

Revistas utilizadas: Placar N° 355 / 1977, Nº 511 / 1980, Nº 1122 / 1996 e Nº 1146 / 1998

Rivaldo estampa a capa da Placar de 77, em um pré copa complicado, 7 anos após a conquista do tricampeonato mundial, e apenas 3 anos após o 4º lugar em 74. Na capa, a palavra dolorosa se refere sobre as 9 baixas para o jogo contra a Bolívia: Nelinho, Zé Maria, Lula, Rivelino, Zico, Falcão, Toninho Cerezzo, Amaral e Caçapava. As reportagens são minuciosas, com entrevistas e analisando cada mínimo ponto sobre o que estava acontecendo no pré jogo. 
“Para que reconquiste o título mundial, no entanto, continua faltando muita coisa - um esquema de jogo, opções para o ataque, jogadas de gol, um sistema mais eficiente de marcação e uma melhor cobertura”. Esse trecho retirado da revista, revela sobre como os discursos se repetem e o achismo sempre é o mesmo, o pior.
Meses antes da copa, temos uma geração em crescimento e que marca toda rodada de futebol europeu e em campeonatos internacionais sulamericanos, e ainda assim  nos deparamos com análises parecidas com algo de 50 anos atrás. Talvez esse trecho demonstre também sobre como para os brasileiros, apenas a vitória e o grande show basta.
Como dito, a revista aborda um pré copa, que foi polêmico não somente pela formação do time brasileiro e suas dúvidas, mas também por uma incerteza da realização no país sede, a Argentina. Durante o período, os Hermanos viviam um período ditatorial liderado por Jorge Rafael Videla, que enxergava no evento duas oportunidades, garantir de certo modo a primeira estrela da seleção, e encobrir graves violações de direitos humanos, torturas (ocorridas próximas ao estádio Monumental). 
Por fim a Copa aconteceu no país e vimos polêmicas como arbitragens contestáveis pró-argentina, a goleada por 6x0 da Argentina em cima do Peru. 
E aqui estamos, 2026, e temos a segunda Copa com discussões sobre boicotes comerciais e também de jogo, por conta de movimentações da Fifa, situações trabalhistas e principalmente, pelo atual momento e forma que os Estados Unidos e o ICE trata seus imigrantes de maneira pífia e excedendo os limites humanos.
Além disso, na sede ao lado, a morte de “El Mencho” no México, narcotraficante mexicano, líder da organização criminosa Cartel de Jalisco Nova Geração, pode gerar guerra territorial e de poder, 100 dias antes do mundial.
Nos últimos anos, nunca vimos um campeonato mundial ter sua sede mudada ou ser boicotado, independente de mortes, trabalho em condição hostil e etc. O que será que deve acontecer para que, o futebol aconteça em uma região de paz para os imigrantes e longe de polêmicas de corrupção tanto externas quanto internas (FIFA)?
Partindo para a segunda revista, de 1980, logo no início essa contemplação ao Doutor e gigante Sócrates. Aqui, o episódio relatado é a vitória do Corinthians no Campeonato Paulista de 79 (Sim, com a final em Fevereiro de 90). Destaco além do Sócrates, essa diagramação, cor, foto, fonte, tudo impecável.
Além disso, uma minuciosidade como essa, dos vendedores de porta de estádio que ofereciam as bandeiras e o "mé", é precioso demais para não ser mostrado. Ainda hoje, com a proibição de bebidas alcoólicas em São Paulo, o tal "mé" é vendido nas redondezas do estádio. Já as bandeiras, foram trocadas pelas faixas, camisas e afins.
Publicidade de uma chuteira em 80, já dizendo sobre não ter “rodelas, tirinhas ou triângulos em cores”, por uma marca que, pessoalmente, não havia escutado até hoje. 
Me chama atenção ver como as publicidades antigas já realizavam um trabalho que hoje é visto nas legendas ou narrações em vídeo, com um storytelling preciso e junto da imagem de divulgação.
Outra coisa clara é a já sabida diferença entre os produtos futebolísticos da época com o que temos atualmente. Durante a década de 70, um jogador do Everton da Inglaterra utilizava chuteiras brancas como jogada de marketing da marca Hummel,  porém fora isso, tudo era muito padronizado. Os uniformes, logos, chuteiras, bolas.
A partir da década de 90, vimos o crescimento de chuteiras coloridas, bolas personalizadas, camisas grotescamente artísticas, etc. Isso me gera uma ideia para futura pesquisa. 
Entender não só a mudança nesses padrões de produtos mas quem teve essa brilhante ideia de estampar uma marca com cores e padrões de formas distintas. Quais foram as impressões da época com essas mudanças? Enfim, papo para ir atrás.
Ao olhar para uma publicação de 1996, talvez nunca imaginaria que uma discussão seriam os gramados. 
Devo aqui dizer que, na verdade, é uma publicidade de uma empresa que cuidava de gramados, porém, se existe esse disclaimer de “Quem Disse?”, é porque existia o questionamento e reclamações sobre os gramados serem ruins. 
Quando começaram as reclamações pelos gramados brasileiros? E principalmente, até onde ela perdurará, visto que, mesmo 30 anos depois, não conseguimos encontrar uma solução para isso.
Acredito que essa seja uma dor crônica do futebol brasileiro, porém, que se agravou com o período de profissionalização e "arenização" do que conhecemos como futebol.
Em pesquisa, encontrei essa aspa:
“Estou contente em ter voltado ao Maracanã como titular... Fiz força para não decepcionar, mas senti um pouco o estado do gramado...” 
Frase dita em março de 1964, por Ademir da Guia, após vitória do Palmeiras sobre o Bangu.
Bom, essa dor pelo visto continuara por mais e mais anos.
Em época de super elencos, grandes números em tudo que se relaciona a futebol, e primordialmente os passos de tartaruga que foram dados após a revitalização dos estádios para a Copa de 2014, 340 torcedores pagantes em um estádio, para um jogo de primeira divisão, é uma situação quase irreal. 
De bate pronto não sei dizer quando foi a última vez que algo assim ocorreu. Sempre ouço dos mais velhos que antigamente todos os estádios eram lotados e tudo mais, porém, basta pesquisar e ver que 1.000, 2.000 pagantes, era algo normal até os anos 2010 no Brasil.
Um dos trechos coletados favoritos da minha parte, um espaço dedicado para quando a seleção trocou o patrocínio da Umbro pela Nike, ainda nova no mercado e apostando forte na maior seleção do mundo, em Ronaldo Nazário e Michael Jordan. 
O mais interessante é que, ainda anos antes de Flamengo e Corinthians serem patrocinados, já existia o interesse por parte da marca americana, que desde 2005 não largou o clube paulista.
O ano era 96 e todo o mercado internacional de futebol já pensava alguns anos dali. Isso explica muito - ao menos para mim - o motivo de nos atrasarmos em questão de evolução do esporte como produto e consequentemente em qualidade.
Para finalizar, ainda um recorte ainda de 96 quando Ronaldo foi melhor do mundo, uma comparação do craque com nada mais nada menos que Pelé. Por mais que seja dito como a comparação com Rei seja uma heresia, à época já existia a noção da grandiosidade do maior 9 que esse país já viu, melhor do mundo com apenas 18 anos. 
E por fim uma conta que se Ronaldo mantivesse sua média de gols, igualaria a média de Pelé em 2014, quase 20 anos depois. 
Infelizmente, o autor não sabia que poucos anos depois, as lesões tirariam tempo, gols, títulos e talvez, um lugar no trono do futebol do Fenômeno.
O primeiro contato com revistas assim é maluquice. Para quem já nasceu em uma geração que transicionou ao digital, ter contato com páginas com quase 50 anos de existência, impressões em preto e branco, a diagramação e editoração das épocas, é uma experiência rica. 
O que serve como principal ponto para essa coleta é, alguns fatores de época que esquecemos, como por exemplo a dúvida em se o Brasil iria bem na Copa de 78, algo replicado pela mídia até os dias de hoje quase com as mesmas frases, a leitura e entendimento da imprensa com um Ronaldo Ballon D’or, a seleção após passar vexame em 98, entre tantas e tantas linhas finas que passam uma, duas, três vezes despercebido, mas ao ver é impossível passar impune. 
A primeira edição está finalizada, caso tenha chegado até aqui, obrigado. Mais edições, colaborações e ideias estão por vir, siga acompanhando.
@__resgate__ no Instagram.  Por mais cultura, sempre.
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