Uma ode ao futebol, por Magiti e Resgate.
O futebol moderno muitas vezes se perde em estatísticas, cifras e coberturas superficiais. Boa parte dos apreciadores do jogo hoje desejam resgatar o que realmente importa: o sentimento visceral, a cultura de rua, as memórias gráficas e o pertencimento em uma cultura ampla e intrínseca. Historicamente, as Copas do Mundo exercem uma influência fundamental sobre as juventudes, e mais do que necessário hoje é discutir os pontos em que ficaram pelo caminho.
Momentos icônicos, bandeiras, uniformes, jogos e cores. Hoje discutimos mais a falta que alguns desses símbolos fazem, portanto, por que não resgatá-los?
Longe do tradicionalismo engessado, propomos uma imersão na estética das arquibancadas, no jornalismo impresso nostálgico e na sensibilidade artística. A exposição abordou a identidade nacional, o comportamento juvenil diante do manto sagrado, a reconstrução de momentos, ídolos e artigos e a conexão geopolítica do futebol através das bandeiras do mundo todo.
O desenvolvimento
Ao final do mês de maio surgiu a necessidade de realizar uma exposição no ANEXO, que contasse uma história sobre futebol. Magiti vem sendo já há um bom tempo um dos nomes que mais empolgam quanto esse é o tema, então a escolha não poderia ter sido outra.
Com os dias de exposição definidos, estávamos trocando sobre as possibilidades criativas e os caminhos a seguir, quando o mesmo me fez o convite de não só ajudar na exposição, mas participar efetivamente da execução e pesquisa com o projeto. Foi então que passamos a desenvolver o que seria apresentado.
Cores, times, jogadores, as oportunidades ao falar de futebol são tamanhas, mas como falar disso sem criar “mais do mesmo”?
Foi então que em uma ligação extensa, traçamos os caminhos que mais aproximavam nossos trabalhos, até chegarmos a conclusão do que seria abordado. RESGATE e Magiti já haviam criado antes, no segundo episódio dos resgates sob revistas antigas, e aqui não nos distanciamos muito. A diferença é que pudemos dar vida às peças e às pesquisas, sintetizando em formas físicas o que consumimos de futebol.
De comportamento das massas a religiosidade em campo, contamos uma história que de certo modo representa o que nossa geração aborda quando o assunto é copa.
Começando pelas obras, todas feitas pelas mãos de Magiti, iniciando em uma releitura dos símbolos da bandeira inglesa, juntamente com elementos da cultura de tatuagens de lá. Todas as paredes da galeria estavam preenchidas com pinturas, que por sua sequência apresentaram criações de Valderrama e Romário com os traços da obra de Pedro, Ronaldo prestes a marcar o gol que nos deu o penta, as cores da Nigéria, e uma obra que destaca alguns símbolos da seleção marroquina, incluindo jogadores, a cultura do grau, e também relacionada à religião.
Ao lado, algo que se aproxima do que foi criado em nosso primeiro contato, com três imagens resgatadas de scans, impressas sob tecido e intervencionadas por Pedro.
Seguindo o caminho das obras, chegamos ao centro do espaço, composto por duas pilastras que marcam muito o espaço. Desde o começo, chegamos a conclusão de que esse espaço teria que além de ser apenas útil, auxiliar o público a entender nossas pesquisas mesmo que não tivessem visto nada antes, foi aí que criamos o conceito das bandeiras.
Para nós, em todas as pesquisas e apontamentos trazidos por cada um, a análise sobre as torcidas sempre vinha à tona. O universo que elas compõem é extenso e nos ensina muito sobre o jogo, suas motivações, costumes culturais e primordialmente a representação de voz das massas.
Contudo, apresentei ao Pedro as pesquisas que são efetuadas por RESGATE através das diferentes composições de grupos organizados em todo o mundo, então recriamos as bandeiras olhando para cada comportamento analisado e reinterpretando do nosso jeito e olhando para a maneira que torcemos por nossas cores.
Foi aqui que nasceram criações que - em minha opinião - representam o coração do que contamos. A primeira das pilastras trazia consigo cores e representações que remetiam a um instinto de guerrilha, com resgates de bandeiras e faixas do Palestino, da própria torcida da seleção Palestina, Salvador Allende, ultras franceses e muito mais. Indo para a segunda pilastra, uma formação completa de leituras sobre o que é brasilidade.
Me lembro de meses antes dessa exposição conversar com Pedro e tentar entender por que nós dois, jovens de 22 e 23 anos, apaixonados por futebol, não nos sentimos quase no direito de gostar de nossas cores e torcer por nossa seleção. Chegamos inclusive a questionar se veríamos algum dia a sexta estrela chegar em nossa camisa. Pude compreender que parte disso é por esse questionamento existir apenas entre nós, quase de maneira interior, e não trazer isso à vida, expor essa vontade que temos em também realizar leituras sobre. É exatamente aí que nascem as faixas e bandeiras, também criadas como releituras de outros materiais de torcidas, mas com nossa identidade e vontades impressas.
Na parede ao lado, camisas da nossa seleção reinterpretadas com base no padrão artístico de Magiti, também com uma camisa da seleção Estadunidense logo abaixo. Nas prateleiras cards feitos a mão também por Magiti.
Mais ao fundo, a composição foi pensada em um espaço que após a visualização das pesquisas, a pessoa pudesse ter o contato de outras maneiras e não apenas visual. Nosso amigo do sul Arnecke, também em um papo semanas antes, dividiu comigo uma ideia que tínhamos parecida, a de realização de uma camisa de botão que contasse a história juntamente de experimentações com números, fontes e etc; Sendo assim, uma camisa com o número 19 foi produzida e enviada para esta exposição, e para projetos que estão por vir.
O espaço ainda contou com nossas primeiras criações, uma televisão antiga da minha família e nossas revistas, para que o visitante pudesse folhear cada revista e história que nos inspirou, e aproveitar para assistir a qualquer jogo de todas as copas.
Ao final, pudemos concluir que boas histórias merecem não apenas ser contadas, mas serem exploradas da maneira mais profunda possível. Acreditar fielmente nos estudos e histórias descobertas a cada dia, abrem novos horizontes e caminhos para que ao lado de pessoas reais, possamos somar, criar, expandir as mensagens de maneira acessível e aproximar o real público de onde devem estar.
Escrevo isso crendo que este é apenas o começo, coisas novas sempre estão por vir.
Uma pesquisa realizada por Pedro Magiti e João Almeida, RESGATE.
Por mais cultura sempre.