Pensamentos sobre uma ferida que não foi fechada
A cada quatro anos um cometa passa durante 1 mês, que trás novos motivos, de tristeza, alegria, nostalgia e risadas. Esse tal cometa guarda hoje 48 histórias, divididas por continentes, cada uma se preparou e teve que provar durante 4 anos que merecia brilhar durante esse mês apoteótico. 
Durante esse período algumas se preparam bem, outras nem tanto. E existem aquelas que nem se preparam. Partindo desse ponto, soa como óbvio qual história tem mais chance de brilhar, né? 
E o pior, que tal uma dessas histórias terem sido avisadas há 24 anos sobre o rumo que estava tomando, e mesmo assim não ser capaz de se corrigir? Sendo racional, não haveria motivos plausíveis para esse conto ter seus dias de glória, não por agora.
Saindo do lúdico e colocando os pés no gramado, o dia 5 de julho ficará marcado na história do futebol brasileiro. Assim como o 7 a 1; 2 a 1; empate com a Croácia e ida aos pênaltis; 4 a 1 para a Argentina fora o baile. São tantos os momentos dentro e fora de campo que seria impossível catalogar aqui por agora.
Quando em sã consciência imaginaríamos ser derrotados por uma seleção que sequer tem tradição em copas como a Noruega? De fato é necessário pontuar, a geração é boa. Porém nada mais do que isso. 
Me lembro após o jogo contra a Croácia em 22, no momento em que o Marquinhos errou aquele pênalti. Sozinho no quarto me peguei pensando, quanto tempo demoraria 4 anos? Parece redundância mas, sabia que a vida seria outra na próxima Copa, e como um bom ansioso, me questionava sobre isso. Houveram outras questões também sobre por que agora, com um ciclo justo e chegando com um time redondo, não conseguimos sequer desenvolver contra um time velho e que não apresentou perigo? 
O pior é que esse mesmo pensamento pode se repetir durante todos os últimos anos. Por que nunca conseguimos chegar? O que estamos fazendo de errado?
Do mais pessimista ao que acredita que poderíamos ser campeões. Daqueles que torcem para a Argentina, aos que perdem e dizem ter razão. Ninguém de fato se acostumou com isso. E por esse motivo aparecem conspiracionistas com questionamentos sobre patrocinadores, influência de empresários em uma convocação, auto sabotagem por parte dos jogadores. Esse tipo de coisa representa apenas um fato: a distância que temos hoje de um trabalho sólido e forte é tamanha que, são léguas de praticidade criar pensamentos fora do real para justificar essa disparidade.
Voltemos a algumas casas. Ainda em fevereiro deste ano, criando a angústia que iria tomar de galões alguns meses depois, resolvi retornar ano após ano para compreender como havíamos caminhado durante esse ciclo. E me deparo com esse vídeo aqui: ​​​​​​​
Basicamente, quase 50 minutos nos lembrando da péssima campanha brasileira nas eliminatórias. A primeira derrota dentro de casa na história, o primeiro empate contra a Venezuela, pior pontuação (28 pontos), menor número de vitórias (apenas 8 em 18 jogos), maior número de derrotas (6) e a maior quantidade de gols sofridos (17 em 18 jogos).
Recordes negativos batidos com sucesso, a caminho de mais um vexame. Isso tudo sem citar as trocas de treinadores, uma Copa América jogada no lixo, trocas de presidentes e a aposta em um jogador que já não demonstrava entregar 10% não daquilo que já entregou um dia, mas do mínimo que esperávamos.
Ali já não sabia se me apegava na fé em São Jorge, ou apenas esperava o tempo passar e determinar o que seria de nós. Estamos sendo e continuaremos reféns do nosso próprio tempo, desperdiçado e tratado como moeda barata para interesses de ganhos políticos e financeiros por meia dúzia de executivos que sequer se importam com o “fazer futebol”. 
Hoje, após 8 anos, um pouquinho mais crescido e com uma visão de mundo sendo aguçada pelo instinto de ser um jovem, me preocupa o fato de que de 2018 para cá, não evoluímos nada. E não digo apenas sobre minha indignação em não ter um meio campo contundente, ou não visualizar a chegada de um lateral que vá suprir nossas necessidades.
Isso está ligado também em como olhamos para o futebol em nosso país, e como discutimos ele. Não decidimos ainda se nos renderemos ao que é feito na europa, se tentaremos ciclo após ciclo encontrar nossa essência, ou se então finalmente daremos espaço e tempo para jogadores jovens e formaremos novos treinadores com suporte e estudo.
Não fazem muitos meses que, após a vitória de mais uma Libertadores e quase um mundial, vimos o Flamengo demitir seu treinador Filipe Luís sem quaisquer avisos prévios ou motivos. Isso é um reflexo do que está acima, na CBF e também do entorno, de todas as divisões e clubes país afora.

Foto de capa por: Thiago Kai
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