A cada nova edição, novas pesquisas e desenvolvimentos eu me recordo do motivo que iniciei isso aqui. Não de forma a glorificar o que faço, longe disso. Sim de conseguir desenvolver uma pesquisa em diversos formatos e para diferentes aplicações.
Cores, Bairros e Torcidas; Uma editoria que pensava anteriormente ser difícil desenvolver e que demoraria alguns meses até que de fato ganhasse uma edição. Porém veio mais rápido do que imaginava.
No dia 3 de janeiro de 2026, conheci um estádio novo, com uma torcida nova - literalmente - e um bairro novo. Juventus e Cascavel - PR se enfrentaram na Copinha, terminando em empate. Mas ali me aprofundei mais em uma história que já havia visto antes, a do Juventus da Mooca, ou então Moleque Travesso.
Em meio a essa pesquisa, acabei me aprofundando mais sobre assuntos como a chegada da SAF, o final da barra Setor 2 e Ju Jovem, as reações da torcida sobre esses assuntos, a bancada e todo o entorno, os fatores que levaram um clube tão tradicional na cidade de São Paulo a não retornar para a primeira divisão por tanto tempo e passar longe do cenário de competições nacionais.
Portanto, após estudar através de diversos vídeos e conteúdos desde observar as ações da barra em seu antigo perfil de Instagram, até vídeos como o Juventus Rumo a Tóquio, me veio na cabeça a seguinte indagação: e se esse for o abençoado ano do acesso?
Desde então, me organizei para esse projeto, que foi a campo durante a segunda fase do Paulistão A2 e o jogo de acesso, mas passou por um processo de estudo e maturação durante a primeira fase inteira. O conteúdo a ser apresentado a seguir é uma pesquisa 100% desenvolvida por RESGATE no período de 2026, de maneira sociocultural e Etnológica.
Antes do aprofundamento sob os acontecimentos é necessário dar um panorama aos que não sabem: o Juventus ao final de 2025, se tornou SAF (Sociedade Anônima do Futebol). Entretanto, as mudanças não foram apenas econômicas, mas também na bancada. O Setor 2, antiga barra citada anteriormente, surgiu como uma das primeiras Barras Brasileiras, de maneira revolta e criada para apoiar o Juventus em todos os lugares, mas também carregar um estilo de torcer argentino, e linguagens políticas assíduas.
Após a definição de compra por parte da SAF, a sua fiel torcida deixou o clube, alegando não fazer mais parte da nova fase do clube. Outros movimentos já existentes na torcida repetiram esse ato posteriormente.
E assim nasce a La Banda Grená, nova barra juventina criada após essa quebra por integrantes que desejavam seguir apoiando o moleque travesso. Vi o movimento surgir junto ao início da Copinha, e logo me surgiu a questão, como seria o desenvolvimento da torcida? Apenas uma releitura da antiga? Entre tantas perguntas, a resposta foi durante alguns finais de semana presenciar e entender melhor tudo isso. Tudo parecia correr no caminho do acesso, talvez apenas na minha cabeça mas, ao final isso fez sentido e guardou histórias incríveis. O resultado você vê agora abaixo.
O primeiro jogo registrado, o primeiro clique. Nesse momento as faixas estendidas estrearam uma festa na Javari que durou até os últimos jogos. O estádio repleto de faixas, com um foguetório imenso e a casa lotada.
Assim ficava a Javari durante os jogos, e em especial o espaço ocupado pela Barra.
Muitos trapos, cada um contando a história de um lugar de São Paulo, países como Equador, entre outros que aparecerão mais a frente, além do charme dos trapos que criam uma sombra na região central da bancada, junto a vegetação na parte de trás.
Logo de cara o que me chamou atenção foram as disposições de uma barra. Vivenciar torcidas em São Paulo ensina muito mais sobre como funcionam as tradicionais T.O's, e não uma barra e seus formatos. Os trapos, as músicas, o "alento", coisas mais próximas da cultura argentina e gaúcha, estranham o olhar em primeira mão mas, para qualquer apaixonado por futebol, é fácil de se acostumar e aprender sobre.
Chamo atenção não só para os elementos como a murga, mas também para a estética geral da coisa. Em uma das fotos, um integrante usava um boné da marca italiana Stone Island, tradicional entre os hooligans dos anos 90 principalmente das regiões britânicas. Esse tipo de estética se repete no universo das barras de certa forma, e após alguns estudos sobre as gaúchas e argentinas, foi a primeira vez que vi essa relação tão intrínseca entre moda e futebol, que carrega símbolos e signos muito pertinentes.
Aqui a primeira história que dá sentido ao caminho percorrido. Todas as fotos parecem do mesmo jogo, porém não são.
Cada uma aí guarda sentimentos e momentos únicos, o momento em que o time estava passando sufoco em um dia nublado, a tensão após o empate em um dia ensolarado, os primeiros 45 minutos e minutos antes da vitória que encaminhava o acesso.
Tantas histórias ali no campo, no mesmo lugar mas, quem é esse personagem?
Esse é o Marcão, que infelizmente não pude chegar e conversar, porém soube de sua história através de membros da barra.
Um cara humilde, filho de Seu Miguel, apaixonado pelo Juve e de família Juventina, Marcão representa a 3ª geração de torcedores do Juve na família, de amor herdado pelo avô.
As cinzas de seu pai e seu avô foram jogadas no gramado da Javari segundo membros da barra.
Sobre o local entre o poste e a grade, não há nada de especial em estar ali naquele espaço, mas se tornou o lugar oficial do Marcão. Não há um único jogo onde ele não está ali.
E se o amor para Marcão veio diretamente de suas referências familiares, há uma explicação nisso. Talvez por um contexto bairrista, a existência do localismo se faz presente e os filhos acompanham os pais desde pequenos.
Os registros contam parte dessa história, em um ambiente que ainda que seja uma bancada tradicional, com costumes de torcida e etc, as crianças são bem vindas, o espaço também é para propagar o amor pelo Juventus entre elas.
Ao ver os pequenos subirem em grades, pegar baquetas para tocar os instrumentos, todos cantando as músicas e se divertindo, além de manter acesa a chama pelo amor real a tudo isso que está sendo dito, ensina muito sobre vida e respeito através de algo tão simples.
Aqui o momento exato de um gol, com um princípio de "avalanche" no meio da barra. O gol no caso foi marcado em um pênalti, inaugurando o placar na vitória de 2 x 1 contra o Sertãozinho.
Esse jogo inclusive marcou o nascimento de um sonho em cada torcedor ali presente. Não sei explicar mas, ao final da partida o clima de comemoração foi uma ebulição da esperança ao acesso. Nesse momento o Juve somava 6 pontos e se distanciava até então na liderança do grupo.
Ambas as fotos retratam o final desse jogo, uma explosão em que todos passaram a acreditar mais e pessoalmente, uma mensagem clara do caminho que seria seguido.
O campo ser tão próximo a bancada trás diversas interações, tanto boas, quanto ruins. Aqui um exemplo captado de uma dessas interações, quando o goleiro do time adversário provocava a torcida de maneira incessante.
Juventus 1 x 1 Votuporanguense, primeiro jogo rumo ao acesso. Antes do primeiro gol decidi subir a bancada, em respeito a festa que a barra estava fazendo, não gostaria de atrapalhar com as fotos.
Logo após o empate um momento emblemático e que para mim sintetiza muito do que vi durante todo esse tempo. Apesar de ser uma torcida nova, todos ali enxergavam um único caminho ao Juventus. Seja você novo na bancada, velho, da Mooca ou não, aquele momento simbolizava que o Juventus de certa forma iria lutar até os últimos segundos pelo acesso.
Momentos depois disso, a virada veio e foi determinante para a classificação.
Juve Baixada, Brasilândia, Miguel e Kátia, Metalpunx, Mauá, Jah Juve, a bandeira oficial do estado de São Paulo. Tudo isso pode parecer apenas um acúmulo de faixas espalhadas sem sentido, porém, guarda histórias e uma inspiração profunda.
O universo de torcidas no geral cultua as bandeiras de maneira singular. Uns tratam como "artigos" intocáveis e até mesmo motivo de brigas entre TO's rivais.
Porém o universo das Barras atua de uma outra forma, com um quadro em branco a ser pintado por "Trapos" de tudo aquilo que representa minimamente as cores do time e torcida. Eu mesmo, em uma das oportunidades, fui convidado a estender uma faixa do projeto ou então da região em que nasci. Um sinal claro de respeito pelaas partes e pela história que está sendo construída, com um senso se união em prol dessa festa na bancada.
Agora outro ponto que deve ser falado, são as referências tradicionais no mundo das Barras para aqueles que já partiram. Na Javari, Miguel e Kátia ganharam um espaço especial atrás do gol e junto da banda.
Miguel, já citado anteriormente, era um torcedor ilustre e que viveu uma vida inteira na Javari. Kátia, outra torcedora icônica e que vivia junto aos participantes da banda.
Fica aqui a lembrança dos dois e que de certa forma, estarão para sempre presentes ao grande amor de cada um, o Juventus.
E se o assunto são pessoas ilustres, esse não poderia ficar de fora. Um dos torcedores mais excêntricos que já vi na bancada, não só pelo seu jeito energético, mas como um todo, e a foto diz muito sobre.
Esse da foto é o conhecido como "Minhoca", torcedor que foi conhecer o Juve no período pós pandemia, e se apaixonou pelo bairro, cores e a torcida.
Hoje um dos representantes da Barra, é sem dúvidas o personagem que ajuda a puxar a energia de quem vai para a bancada, sobe no alambrado quando quer xingar, reclama para que cantem mais alto. Tudo com um único motivo, o Juventus vencer.
No exato segundo em que o juiz apitou o final do jogo contra o Votuporanguense, me senti meio perdido em relação aos registros. Todos choravam, se abraçavam, eram muitos momentos em um só. E logo após me cumprimentar, "Minhoca" se ajoelha e agradece pelo que aconteceu.
Eu não tinha a noção do quanto representativo essa foto conseguiria ser. Para mim, esse registro culmina em tudo que foi dito anteriormente, sobre a paixão de um povo pelas cores de um clube, o bairro, a sensação de conhecer todos os que torcem, o sonho pelo acesso, tudo isso em um pequeno gesto de um torcedor singular.
Cada foto guarda um recorte único no espaço-tempo durante a busca pelo acesso. Acima das minhas experiências, fica o que cada imagem pode provocar em quem está vendo.
Acredito também que, apesar de ter a possibilidade em apresentar tudo que vi e vivi, certas perguntas e outras conclusões devem nascer de maneira natural a quem está vendo.
Fica aqui então os meus agradecimentos aos que ajudaram esse projeto acontecer, e primordialmente os amigos da La Banda Grená, que não só permitiram mas me introduziram à cultura do clube tão vivida por eles há anos.
Espero que as coisas se sucedam bem, tanto na Copa Paulista quanto na tão sonhada participação no Paulistão A1, que guardam tantas perguntas como "Onde o Juventus irá jogar? E os jogadores que a SAF contratou?
Isso irá valer mais uma investigação futura.
Esse foi o primeiro episódio de uma série que irá se desenvolver entre fotos e futuramente vídeos, com o intuito de entender e analisar a pluralidade cultural de diversos povos, entre cores, bairros e torcidas.
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As fotos são de total direito de RESGATE e João Almeida, não utilize sem a devida liberação.